
Este ano o Mister Lisbon Bear Pride não foi para um açoriano. Foi para dois.
O Bruno Cardoso levou a faixa principal. O Pedro Morais ficou em segundo, como Vice. Os dois vêm do meio do Atlântico. Longe do continente.
O Bruno é do Faial. O Pedro é de São Miguel. Ilhas diferentes, mesmo arquipélago. A mesma tarde em Lisboa. Quem conhece os Açores sabe que aqueles sítios não se parecem. O Faial é a ilha azul. Hortênsias por todo o lado. A marina da Horta, onde quem passa pinta a sua marca no paredão. São Miguel é a ilha grande e verde. Ponta Delgada. As lagoas nas crateras. Duas casas distintas. As duas longe de um palco na capital.
O Eddie apresentou a tarde. É um dos donos do Bar Tr3s e do Villa 3 Caparica. A Lucy Fromell esteve ao lado dele. O público votou. O Bruno passou os 600 votos. O Pedro chegou perto dos 300. Bons números para uma tarde.
Depois veio a novidade. O júri criou um título de Vice Mister. Pela primeira vez. Não foi prémio de consolação. Aquele segundo lugar valia uma faixa. O Pedro saiu com ela.
O Bruno traz mais do que uma faixa. Preside à Associação Ursos de Portugal. Ajuda a organizar a eleição do Mister Bear Europe, que este ano se faz em Lisboa. Nos últimos dois anos representou Portugal pela Europa. Andou pelas comunidades bear ao lado do Alex. O Alex foi Mister Lisbon Bear Pride 2024. É o atual Mister Bear Europe. Dois anos de estrada.
Porque concorreu? Diz que é um urso a meio de uma transformação. A transformação é de corpo. Há ano e meio começou a luta. Pesava 229 quilos. Agora pesa 170. Ainda não acabou. Quer chegar ao fim no próximo ano, quando entregar a faixa. O título não é a meta. É uma paragem.
Concorrer assustou-o. Subiu ao palco a meio do caminho. Um concurso destes é metade entusiasmo, metade pavor. O pior foi o minuto. Um minuto sozinho. Para cantar, dançar, falar de ti. Toda a gente a olhar. Pelas boas e pelas más razões.
Puseram-lhe a faixa. Não pensou num discurso. Pensou isto: “Bruninho, nas coisas em que tu te metes, pá. Não podias fazer uma pausa, pois não? Olha, mas agora aproveita o momento, és o novo Mister Lisbon Bear Pride, que ele é teu.” Vinha de um fim de semana em que pôs o Mister Bear Europe 2026 de lado e se atirou ao Lisbon Bear Pride. Descansar não estava nos planos.
O Alex esteve lá. Viu-o ganhar. O mesmo Alex que levou esta faixa em 2024. Dois anos depois, a faixa muda de mãos dentro de casa.
A ilha conta. O Bruno nasceu e cresceu no Faial. A certa altura sentiu que tinha de esticar as asas se queria uma carreira. Foi para o continente primeiro. Há catorze anos mudou-se para o Reino Unido. Vive lá agora. Um homem que nasceu numa ilha açoriana e vive em Inglaterra foi ganhar a faixa a Lisboa.
E agora? O Bruno quer usar a faixa por uma causa. Quer dar palco ao EuroBear. É um projeto seu. Uma associação de associações. Uma Europa bear unida. Quer também mostrar uma coisa simples. A comunidade é feita de muita gente. De muitos corpos. Cabem lá todos. Se inspirar uma pessoa a concorrer a um Mister Bear, conta isso como vitória. Ele sabe do que fala. O Bartek da Polónia e o Johann da Islândia inspiraram-no a concorrer. Agora quer ser ele a inspirar outra pessoa.
E o Pedro? Anda na comunidade bear há mais de dez anos. Subiu a um pódio destes pela primeira vez. Voltou a Lisboa há pouco tempo. Pela segunda vez. Ainda se habitua à cidade. Anda à procura de trabalho. Pelo meio canta, desenha, passeia. Vai aos concertos da banda dos amigos. Vive.
A razão por que concorreu é honesta. Vinha de um fim de relação. Abalou-lhe a autoestima. Pôs-se a duvidar de si. Inscreveu-se na de “se der, deu”. Não esperava chegar a lado nenhum. Chegou ao topo.
A tarde retribuiu. Conheceu gente que o acolheu pelo que ele é. Não pela imagem. Fez amizades que diz que ficam. Um momento marcou-o mais que os outros, tirando a faixa. A atuação. Cantou de arnês, seminu, à frente de toda a gente. Nunca se tinha imaginado a fazer aquilo. Fez. Saiu de lá outro.
O título surpreendeu-o. Ficou feliz e lisonjeado. A faixa foi criada para ele. Mais de dez anos na comunidade, e o júri inventa um lugar só para o ter no pódio. Não é pouco.
O futuro dele tem peso. Ainda não pode viajar pela Europa dos eventos bear. Vai apostar nas redes e no que se faz em Lisboa. Tem uma causa. Quer dar visibilidade a outros da comunidade. Quer que se perceba uma coisa. Nas palavras dele, “nós, ursos, somos muito para além de corpos”. Quer trabalhar a aceitação do corpo e o apoio à saúde mental. Diz que é o legado que quer deixar ao próximo Vice. Acredito nele.
Ainda há quem ache que isto dos ursos é coisa de Lisboa e Porto. Depois aparecem dois gajos das ilhas e levam o pódio inteiro.
Parabéns aos dois. As ilhas apareceram. Lisboa reparou.